A falta de desejo sexual é uma das queixas mais comuns nos casais que chegam até mim. E também uma das que mais carregam vergonha — porque vai contra uma narrativa que diz que casais saudáveis deveriam sempre querer sexo.
Essa narrativa é falsa. Flutuações no desejo são normais. O que não é normal — nem inevitável — é uma ausência prolongada que está causando sofrimento.
O que é falta de desejo sexual no casamento
A falta de desejo sexual no casamento é a ausência persistente de vontade de ter relações sexuais com o parceiro — mesmo quando não há uma causa física evidente, e mesmo quando a pessoa pode sentir desejo em outros contextos.
É diferente de uma fase de menos frequência. É diferente de estar cansado ou estressado em uma semana específica. Estamos falando de meses ou anos de desinteresse que está causando sofrimento — para um dos parceiros, para ambos, ou para o relacionamento.
Por que o desejo desaparece no casamento
Esther Perel, terapeuta e autora de Mating in Captivity, formula assim: "o amor precisa de proximidade; o desejo precisa de distância". É uma tensão real. Não é pessimismo — é uma observação clínica com respaldo empírico.
A rotina mata o mistério
O desejo se alimenta de novidade, antecipação e alteridade — a sensação de que o outro é um ser separado, com sua própria vida, seus próprios mistérios. Em um casamento muito fechado, muito fundido, isso se perde. Os dois viram extensão um do outro. E é difícil desejar aquilo com que você se identificou completamente.
O sexo virou mais uma tarefa
Quando o sexo existe na agenda como um item entre "colocar a roupa na máquina" e "checar as finanças", o desejo precisa competir com o cansaço, a lógística e a obrigação. Raramente vence.
Conflitos não resolvidos bloqueiam a intimidade
Ressentimento é um anestésico sexual. Casais que têm conflitos crônicos não resolvidos — sobre dinheiro, criação dos filhos, divisão doméstica — frequentemente deixam de ter sexo não porque perderam a atração, mas porque a raiva bloqueou o acesso à vulnerabilidade que o sexo requer. Se a comunicação no casamento travou, o sexo costuma travar junto.
A assimetria de desejo
Em muitos casais, um parceiro quer mais do que o outro. Isso cria um ciclo difícil: quem quer mais sente rejeição e aumenta a pressão; quem quer menos sente culpa e se fecha ainda mais. Quanto mais um persegue, mais o outro recua.
Cansaço, saúde mental e medicamentos
Depressão, ansiedade, burnout e alguns medicamentos (especialmente antidepressivos ISRS) suprimem o desejo diretamente. Se houve uma mudança de medicação ou um período de alta demanda emocional, isso pode explicar o momento atual.
O erro mais comum que os casais cometem
Esperar que o desejo volte sozinho.
O desejo sexual no casamento de longo prazo frequentemente não é espontâneo — é cultivado. E cultivar desejo requer intenção. Não é uma falha moral ou sinal de que o amor acabou. É a natureza da intimidade ao longo do tempo.
O modelo de Basson (2001) sobre resposta sexual mostrou que, especialmente para mulheres, o desejo pode ser responsivo — surge em resposta ao contato e à excitação, não antes deles. Esperar "sentir vontade" como pré-condição para qualquer aproximação pode ser contraproducente.
O que ajuda de verdade
Conversar sobre o assunto
A maioria dos casais não fala sobre sua vida sexual — sobre o que funciona, o que mudou, o que um quer que o outro não percebeu. A ausência dessa conversa perpetua o problema. Veja também: comunicação no casamento.
Separar o sexo da obrigação
Introduzir formas de intimidade física que não sejam focadas no desempenho ou no orgasmo. Massagem, toque sem expectativa de penetração, aproximação física sem pressão. Isso reduz a ansiedade e cria um contexto mais favorável ao desejo.
Investigar causas físicas
Se a queda do desejo foi abrupta ou coincidiu com mudanças de saúde ou medicação, vale consultar endocrinologista ou ginecologista para avaliar hormônios. A testosterona — relevante para o desejo em homens e mulheres — pode ser avaliada com exame de sangue simples.
Terapia individual ou de casal
Quando o problema é persistente, a terapia de casal oferece um espaço para trabalhar o que está impedindo a proximidade — não apenas sexual, mas emocional. Frequentemente, restaurar a conexão emocional é o que restaura o desejo.
A terapia sexual é indicada quando a questão tem componentes mais específicos: histórico de trauma, ansiedade em relação ao próprio corpo, ou quando a assimetria de desejo é muito marcada.
Quando é sinal de algo maior
A falta de desejo sexual pode ser sintoma de outras questões:
- Depressão não diagnosticada
- Trauma sexual não processado
- Insatisfação profunda com o relacionamento — não necessariamente sexual
- Um ou ambos os parceiros pensando em separação, mas sem conseguir nomear
Não é sempre o caso. Mas quando a falta de desejo é acompanhada de indiferença emocional, distância afetiva e falta de interesse em resolver — vale olhar para a relação como um todo, não só para o sexo.
Uma coisa para fazer hoje
Antes de qualquer estratégia, existe uma pergunta simples que vale ser respondida com honestidade:
Quando foi a última vez que você e seu parceiro criaram um momento — só dos dois, sem celular, sem filhos, sem agenda — que não tinha nenhum objetivo específico?
O desejo não nasce no vácuo. Nasce em contextos onde os dois se sentem presentes, seguros e vistos um pelo outro. Criar esses contextos é o primeiro passo.
Referências
- Gottman, J.M. & Gottman, J.S. (2008). Gottman Method Couple Therapy. In Gurman (Ed.), Clinical Handbook of Couple Therapy. Guilford.
- Basson, R. (2001). Human sex-response cycles. Journal of Sex & Marital Therapy, 27(1).
- Perel, E. (2006). Mating in Captivity: Unlocking Erotic Intelligence. Harper.
- Mark, K.P. & Murray, S.H. (2012). The mediating role of sexual desire. Archives of Sexual Behavior, 41(6).
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Fernanda Novello é psicóloga com registro CRP 05/38248, especialista em relacionamentos e sexualidade, com mais de 12 anos de experiência e mais de 1.200 casais atendidos. Atende online para todo o Brasil e presencialmente na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.