Terapia Sexual·8 min de leitura

Como Aumentar a Libido: O Que a Ciência Realmente Diz

Baixa libido tem causas físicas e psicológicas — e respostas diferentes. Entenda o que a pesquisa mostra sobre como aumentar o desejo sexual de forma duradoura.

Fernanda Novello

Fernanda Novello

Psicóloga · CRP 05/38248

"Como aumentar a libido" é uma das perguntas mais buscadas sobre saúde sexual. E é também uma das mais mal respondidas — porque a maioria das respostas ignora o que a ciência realmente mostra.

Suplementos, chocolates afrodisíacos, receitas caseiras. Nada disso tem evidência robusta. O que tem evidência é mais complexo — e mais interessante.

O que é libido (e por que ela cai)

Libido é o desejo sexual. Não é um instinto fixo e estável — é dinâmico, influenciado por fatores físicos, emocionais, relacionais e contextuais.

A libido cai quando um ou mais desses sistemas estão desregulados. E ela volta quando esses sistemas são endereçados — não quando tomamos um suplemento.

Causas físicas da baixa libido

Antes de qualquer intervenção psicológica, causas orgânicas precisam ser investigadas:

Alterações hormonais Queda de testosterona (em homens e mulheres) e variações de estrogênio são as causas orgânicas mais comuns de baixa libido. Exames de sangue identificam rapidamente. Endocrinologista ou ginecologista avaliam o tratamento.

Efeitos de medicamentos Antidepressivos ISRS (fluoxetina, sertralina, paroxetina) reduzem a libido em parte significativa dos usuários. Se você está usando e percebeu queda do desejo, converse com seu psiquiatra sobre ajustes.

Anticoncepcionais hormonais Evidências sugerem que pílulas anticoncepcionais combinadas podem reduzir o desejo em algumas mulheres, especialmente pelo impacto na testosterona biodisponível.

Condições de saúde Hipotireoidismo, diabetes, síndrome dos ovários policísticos (SOP), depressão e ansiedade não tratadas são causas frequentes.

Cansaço crônico e privação de sono Subestimados — mas fundamentais. Cortisol elevado (hormônio do estresse) suprime diretamente a testosterona.

Causas psicológicas da baixa libido

Quando as causas orgânicas foram descartadas, o terreno é principalmente psicológico e relacional.

Ansiedade e estresse

O estado de alerta constante inibe o desejo sexual. O sistema nervoso não pode estar simultaneamente em modo de sobrevivência e em modo de prazer. É fisiológico.

Depressão

A associação entre depressão e disfunção sexual é bidirecional: depressão reduz o desejo; a perda do prazer sexual pode aprofundar a depressão. Um estudo no Journal of Sexual Medicine confirmou essa relação em revisão sistemática.

Imagem corporal

A pesquisa de Basson (2002) sobre o modelo de resposta sexual feminina mostrou que o desejo nas mulheres é frequentemente responsivo — surge em resposta à estimulação, não antes dela. Mas isso requer que a mulher se sinta confortável no próprio corpo e no contexto da relação.

Vergonha corporal e autocrítica suprimem a disponibilidade para o desejo.

Dinâmica do relacionamento

A qualidade emocional da relação impacta diretamente a vida sexual. Gottman identificou que casais com alta satisfação sexual têm em comum não a frequência das relações, mas a qualidade da conexão emocional fora do sexo.

Conflitos não resolvidos, ressentimentos acumulados e falta de intimidade emocional matam o desejo gradualmente. É por isso que a terapia de casal frequentemente resolve problemas de libido que pareciam ser individuais.

O que realmente funciona

1. Investigar e tratar causas orgânicas

Exames hormonais básicos + avaliação de medicamentos. Isso deve vir antes de qualquer abordagem psicológica.

2. Tratar ansiedade e depressão

Não como instrumento para "melhorar o sexo" — mas porque são condições que merecem tratamento por si mesmas, e esse tratamento frequentemente restaura o desejo.

Atenção: alguns antidepressivos pioram a libido. Bupropriona e mirtazapina têm perfil mais favorável nesse sentido. Discuta com seu psiquiatra.

3. Endereçar a dinâmica relacional

Se a baixa libido aparece especificamente com o parceiro (mas não na masturbação, por exemplo), o problema raramente é individual. É relacional.

Sessões de terapia de casal criam espaço para trabalhar o que está impedindo a proximidade emocional — e, como consequência, a sexual.

4. Exercício físico regular

A evidência aqui é sólida. Exercício aeróbico regular aumenta níveis de testosterona, melhora imagem corporal e reduz cortisol. Não como solução única — mas como parte do contexto.

5. Priorizar sono

Privação de sono crônica reduz testosterona em até 10-15% por semana. A qualidade do sono é um dos fatores mais subestimados na saúde sexual.

6. Terapia sexual

Quando a baixa libido tem componentes psicológicos significativos — e frequentemente tem —, a terapia sexual trabalha diretamente com crenças, ansiedade e padrões que suprimem o desejo.

O que não funciona (apesar do marketing)

  • Suplementos de "libido" — sem evidência robusta para a maioria
  • Afrodisíacos alimentares — efeito placebo bem documentado, eficácia clínica, não
  • "Só precisa relaxar" — simplifica um problema que pode ter múltiplas causas reais
  • Fazer sexo mesmo sem querer "para treinar o desejo" — quando feito por obrigação, tende a gerar mais aversão do que desejo

Uma nota sobre o modelo de desejo responsivo

O trabalho de Basson mudou como entendemos o desejo sexual feminino — e foi parcialmente estendido para homens também. O desejo nem sempre precede a excitação. Para muitas pessoas, o desejo surge durante o contato, não antes.

Isso significa que esperar "sentir vontade" antes de qualquer aproximação pode ser contraproducente. Criar contextos favoráveis à excitação pode ser o ponto de entrada — não o desejo espontâneo como pré-requisito.

Isso é diferente de ignorar a falta de desejo. É entender que o desejo tem múltiplas formas de aparecer.


Referências

  • Brotto, L.A. & Luria, M. (2014). Sexual Interest/Arousal Disorder. Annual Review of Clinical Psychology, 10.
  • Basson, R. (2002). A model of women's sexual arousal. Journal of Sex & Marital Therapy, 28(1).
  • Atlantis, E. & Sullivan, T. (2012). Bidirectional association between depression and sexual dysfunction. Journal of Sexual Medicine, 9(6).
  • Gottman, J. & Silver, N. (1999). The Seven Principles for Making Marriage Work. Crown.

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Fernanda Novello é psicóloga com registro CRP 05/38248, especialista em relacionamentos e sexualidade, com mais de 12 anos de experiência e mais de 1.200 casais atendidos. Atende online para todo o Brasil e presencialmente na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

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