"A gente não consegue se comunicar." É uma das frases que mais ouço de casais que chegam até mim — e também uma das mais imprecisas.
Porque o problema raramente é que o casal não consegue se comunicar. O problema é que eles se comunicam de uma forma que não funciona.
O que é comunicação no casamento (além do óbvio)
Comunicação não é só o que é dito. É o que é interpretado. É o que é evitado. É o tom, o momento, a postura, o que ficou por dizer.
Um casal que passa o dia em silêncio também está se comunicando — está comunicando distância, desconforto, encerramento. Um casal que briga com frequência também está se comunicando — mas de uma forma que não resolve nada e acumula mais dano do que esclarecimento.
A questão não é se o casal se comunica. É como.
Por que a comunicação no casamento falha
Cada um fala de um lugar diferente
Em um conflito, cada parceiro está geralmente falando de um lugar emocional diferente. Um está com raiva. O outro, na defensiva. Um quer resolver agora. O outro precisa de espaço. Nenhum consegue ouvir o outro porque os dois estão, ao mesmo tempo, tentando ser ouvidos.
O que é dito não é o que é escutado
A mensagem que parte de uma pessoa e a mensagem que chega na outra frequentemente não são a mesma. Filtramos o que ouvimos pela nossa história, pelas nossas experiências anteriores, pelos nossos medos. "Você sempre chega tarde" pode ser escutado como "você não me importa" — mesmo que a intenção fosse só registrar uma reclamação.
Assuntos difíceis são evitados
Muitos casais desenvolvem, com o tempo, um acordo tácito: alguns assuntos simplesmente não são tocados. Dinheiro. Sexo. Filhos. Sogros. O futuro. Esse silêncio protege a paz de curto prazo e corrói a intimidade no longo prazo.
O momento errado
Conversas importantes tentadas no pico do cansaço, da fome, da irritação ou da pressa raramente terminam bem. O quando importa tanto quanto o o quê.
Padrões aprendidos na família de origem
A forma como cada um aprendeu a lidar com conflito na família onde cresceu fica. Famílias que gritavam formam pessoas que gritam ou que têm pavor de conflito e fogem. Nenhum dos dois extremos funciona bem em um casamento.
Os 3 padrões mais destrutivos (e o que fazer)
1. Perseguidor × Fugitivo
Um dos parceiros pressiona para ter a conversa; o outro evita, muda de assunto, sai da sala ou simplesmente fecha. Resultado: um fica frustrado por nunca conseguir resolver, o outro fica sufocado pela pressão. Quanto mais um persegue, mais o outro foge.
O que ajuda: O perseguidor precisa aprender a comunicar a necessidade sem pressão. O fugitivo precisa aprender que o silêncio não resolve — só adia. Acordar um horário neutro para conversar (não na hora quente) pode quebrar o ciclo.
2. Crítica × Defensividade
Um dos parceiros formula suas queixas como ataques ao caráter do outro ("Você é desorganizado", "Você nunca pensa em mim"). O outro se defende ou contra-ataca, e a conversa descamba para quem tem razão em vez de resolver o que importava.
O que ajuda: Falar a partir do próprio sentimento e da própria necessidade, não sobre o comportamento do outro. "Eu me sinto sozinha quando você passa o fim de semana todo no celular" é diferente de "Você só pensa em você".
3. Os dois falam, nenhum escuta
As duas pessoas estão na conversa, mas nenhuma está realmente recebendo o que o outro diz. Cada um está, na cabeça, formulando a próxima resposta enquanto o outro ainda fala.
O que ajuda: Praticar escuta ativa intencionalmente. Isso significa ouvir para entender — não para responder. E, quando necessário, confirmar o que foi entendido antes de continuar: "Deixa eu ver se entendi o que você está dizendo..."
O que a pesquisa mostra sobre comunicação em casamentos que funcionam
John Gottman, pesquisador que estudou mais de 40.000 casais ao longo de décadas, identificou que a proporção de interações positivas para negativas em casamentos estáveis é de 5 para 1. Para cada conflito, crítica ou momento difícil — cinco momentos de conexão, leveza, carinho ou validação.
Não é sobre não brigar. É sobre manter um saldo positivo que sustente o casal quando os momentos difíceis chegam.
Comunicação sobre sexo: o ponto cego
A maioria dos casais consegue conversar sobre dinheiro, criação dos filhos e planos para o futuro antes de conseguir conversar abertamente sobre a vida sexual. (Se o conflito já se tornou padrão, veja: brigas de casal — quando buscar ajuda) É o tema mais evitado e, frequentemente, o que mais impacta a proximidade emocional.
Insatisfação sexual raramente começa no sexo. Começa na falta de comunicação sobre o sexo — sobre o que cada um quer, o que mudou, o que sente falta, o que não quer mais.
Quando a terapia de casal ajuda na comunicação
A terapia de casal não ensina um roteiro de comunicação. O que ela faz é criar condições para que conversas impossíveis se tornem possíveis: um espaço neutro, com um terceiro imparcial, onde os dois conseguem ser ouvidos — talvez pela primeira vez de verdade.
Os resultados que observo com mais frequência em casais que trabalham a comunicação em terapia:
- Redução significativa do volume e da frequência dos conflitos
- Conversas que antes emperravam começam a ter desfechos diferentes
- Cada um passa a entender melhor o que o outro precisa — e a pedir de uma forma que o outro consegue ouvir
- A intimidade emocional (e frequentemente a sexual) encontra espaço para voltar
Uma coisa prática para tentar hoje
Se você quer começar a mudar a comunicação no seu casamento, existe um ponto de entrada simples: mude a pergunta.
Em vez de "Como foi seu dia?" (que quase sempre recebe um "Bem, e o seu?"), experimente: "Qual foi a melhor parte do seu dia?" ou "Teve algo que te preocupou hoje?".
Não é mágica. Mas é um convite diferente — e convites diferentes às vezes abrem conversas que não estariam disponíveis de outra forma.
Referências
- Gottman, J.M. (1994). Why Marriages Succeed or Fail. Simon & Schuster.
- Rosenberg, M.B. (2003). Nonviolent Communication: A Language of Life. PuddleDancer Press.
- Gottman Institute. The Sound Relationship House Theory. Gottman.com, 2023.
Leia também:
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- Crise no Casamento: O Que É e Como Atravessar
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Fernanda Novello é psicóloga com registro CRP 05/38248, especialista em relacionamentos e sexualidade, com mais de 12 anos de experiência e mais de 1.200 casais atendidos. Atende online para todo o Brasil e presencialmente na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.